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Raymundo Natalino e as encenações Bíblicas em Santa Bárbara MG

Atualizado: 25 de jun. de 2021

Semente da Âncora Cia de Teatro, a COENBI, criada localmente por Raymundo Natalino, é responsável pelo forte envolvimento da comunidade nas encenações, ano a ano.



Nasce a COENBI


Não há como falar da Âncora Cia de Teatro, sem falar da COENBI, Comissão de Encenações Bíblicas, a semente de tudo em Santa Bárbara – MG. E não há como falar da última sem uma prosa com Raymundo Natalino, pai e mestre da obra, por 10 anos.

Natural de Mariana e desde cedo envolvido em atividades formadoras de crianças e jovens na igreja católica, ali também se conectou a um grupo de artes dramáticas amador, mas de fortes papel e atuação na região.

Este foi um período decisivo na formação em artes dramáticas de Raymundo Natalino. Tomou parte em diferentes montagens, integrando, também, interpretações bíblicas da Semana Santa de Mariana.

Dividindo seu tempo entre o teatro e outras atividades profissionais, casou-se e mudou-se para Santa Bárbara, transferido para o escritório da empresa CAF – Companhia Agrícola Florestal, onde trabalhava. Tempo difícil, pelo afastamento de toda a família, foi amenizado pela acolhida local, falando dos mineiros que somos, carregada de reconhecimento e valorização.

Ali, conversando com seu entorno pessoal e profissional, começou a mostrar seu envolvimento com artes dramáticas e alinhar projetos de encenação localmente. Optaram por começar com interpretações bíblicas e por um entendimento anterior com o pároco local, em função da fragilidade do tema se feito sem alinhamento de ideias e olhares. Não queriam, definitivamente, agredir quaisquer segmentos religiosos locais, dado que a religião e a espiritualidade são temas frágeis para uns, dependendo da abordagem de outros.

Pós aprovação do padre João, pároco local então, os ensaios tiveram início, afinal, com certa animação e ansiedade do grupo envolvido, todo dividido na organização do drama inteiro: encenação, figurino, cenários, iluminação, sonorização.

Ali nascia a COENBI, comissão de Encenações Bíblicas, entidade responsável por preparar os figurinos, cenários, ensaios, escalar os atores para os papéis, entre outras funções. A atuação da COENBI marca a primeira fase de encenação da Paixão de Jesus em Santa Bárbara, sendo que as apresentações no período de existência do grupo eram realizadas no centro histórico da cidade, próximo à Matriz de Santo Antônio.



Nos palcos e praças de Santa Bárbara


As apresentações começaram de acordo à liturgia própria dos dias da semana santa, tendo início com o Domingo de Ramos e a entrada mais que triunfante de Jesus em Jerusalém.

Na segunda, terça e quarta apresentava-se quadros pontuais como cura de cego, de paralítico, bodas dos leprosos, mulher adúltera, etc, escritos, todos eles, a partir do Novo Testamento e renovados ano a ano.

Na Quinta Feira Santa encenava-se a Santa Ceia e a cerimônia Lava-Pés, seguida da Oração no Horto das Oliveiras, quando Cristo é preso. Dava-se início, então,ao Tríduo Pascal, três dias celebrados no Cristianismo, composto pela Quinta, Sexta e Sábado Santos. Nele, a missa de Quinta não tem benção final, sendo o santíssimo trasladado para um local reservado. Já na Sexta, não há missa. Somente a celebração da Paixão e Morte de Cristo, com a encenação ao VIVO, seguindo o contexto das leituras destes dias: prisão de Jesus, sua condução perante os tribunais, para posterior julgamento, condenação, crucificação e morte.

Após a cena da morte de Cristo, a Procissão do Senhor Morto saía pela cidade com a presença de todos os participantes da encenação, menos o Cristo que ficava em um esquife na igreja, pronto para a procissão.

No sábado, encerrava-se o Tríduo Pascal e não havia celebração no interior da igreja, retornando no domingo, com a Ressurreição do Senhor, quando algumas pessoas desmaiavam ao viver a encenação de tudo o que é relatado no texto bíblico e que conhecemos de cor, da igreja e do conhecimento popular.



Envolvimento da Comunidade


Esta encenação da Vida, Morte, Paixão e Ressurreição de Cristo, diretamente vinculada à paróquia, reunia não só Cristãos e locais. Pela integração dos cidadãos e visitantes, pelo respeito geral e pelo vulto, a encenação ganhava um cunho ecumênico, nas palavras de Natalino. A participação da comunidade e os visitantes recebidos, todos em perfeita interação, os enchia de alegria pelo respeito interpessoal “em perfeita interação ecumênica”.

E esta adesão incondicional dos locais, junto à simplicidade dos cenários e artefatos de cena, na praça, geravam uma forte sensação de pertencimento dos cidadãos em participação e colaboração intensas. Havia uma interação única entre os integrantes da encenação, todos os voluntários, dentro e fora dos palcos, e população local.

O sucesso das encenações no primeiro ano, aumentou o vínculo e a vontade de contribuir dos locais, entidades e pessoas. Com apoio da Prefeitura, da paróquia, do comércio local, foram realizadas diferentes campanhas, bingos, festival de Chopp, para angariar fundos e tiveram, todos, participação maciça da comunidade.

Como os ensaios eram realizados na Igreja do Rosário, sempre à noite, algumas vezes bem tarde(para o público não ver e não quebrar a surpresa), e outras aos domingos, a maior parte dos participantes eram locais, mas, ainda assim, figuravam alguns voluntários da região. Os pais dos adolescentes, acompanhando, se propunham figurantes das cenas em ensaio, trazendo alívio na preocupação com o tardar das encenações.



Obrigado Natalino, por seu protagonismo!


Tudo isto aconteceu por 10 anos consecutivos, sob a gestão dele, do Natalino, que só cessou com sua transferência pela CAF, em 1986, para Anchieta, no Espírito Santo.

Passou o bastão, junto à responsabilidade e ao compromisso, ao Jorginho, juntamente ao Wilson de Paula e Vanderlei José Rosa, robustecendo conselhos e necessidades no sentido de não deixar aquele trabalho acabar, considerada a caminhada já realizada.

Sua despedida teve o peso, para si e para a comunidade, de uma dedicação efetiva a um projeto que ganhou corpo em si e também a alma dos locais e da região.

A cidade, o projeto que se tornaria d’Os Passos da Agonia, os amigos feitos localmente, os compadres, tudo somado, tornou sua partida mais difícil, mas havia um compromisso.

Seu desligamento, trouxe, com o tempo diretores profissionais de Belo Horizonte, entre eles o Ênio Reis, para dar continuidade a seu trabalho. Aqui, a conexão é feita de alinhamento e admiração pessoal e profissional.

Raymundo registra, categoricamente, sua gratidão a Reis, nas palavras dele, registrando “agradecimento ao Ênio, por dar continuidade ao trabalho por mim iniciado e parabeniza-lo por ter transformado a COENBI em celeiro de atores, dando enorme projeção ao teatro religioso e cultural, com reconhecimento para o povo de Santa Bárbara”.

“É curioso o fato de Raymundo Natalino, alicerce do teatro religioso feito pela Âncora Cia de Teatro, ter saído de Santa Bárbara exatamente para Anchieta, no Espírito Santo, já que o nome desta cidade é uma homenagem ao Padre Jesuíta José de Anchieta, precursor do teatro no Brasil que ali viveu e morreu”. Admira-se da sincronia, Ênio!

Partindo do Ênio, a gratidão por alicerces tão bem semeados e cultivados, prontos a gerar frutos e seguir agregando a participação da comunidade e da região, como voluntários ou público deste imenso projeto.





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